- É Fernando Oliveira.
Dizia o menino claramente nervoso, sentia o suor descer sobre o rosto lentamente.
Estar na boca de cena olhando o escuro era realmente ameaçador.
- Você tá a quanto tempo nessa profissão?
- Eu estou ha dois anos...
- Dois anos?! - perguntou o homem desdenhando. - Você sabe que este é o papel de protagonista não é?
- Sim, senhor.
- Acha que tem qualidade o bastante pra isso?
- Não sei, vai depender do que o senhor achar. - dizia entrelaçando os dedos e balançando de um lado para o outro, mostrando claramente seu nervosismo.
O diretor respirou fundo e pousou seu óculos na mesa. - O palco é seu...
- E...uu v...v...ou apre...pre...pre..sen...
- Fernando! - gritou o diretor.
- Sim?! - perguntou o menino assustado.
- O que se espera de um ator , no minimo, é que fale fluentemente e bem! - disse friamente.
- Eu sei.
- Ainda acha que merece esse papel?
- Sim, só estou um pouco nervoso senhor. - dizia o menino desesperado.
O homem respirou fundo secando o suor da testa e recolocou os óculos. - Quantos anos você tem?
- Tenho 18 senhor.
- 18?!?! - perguntou irritado, respirou fundo novamente e riscou o nome do menino na sua caderneta - Como conseguiu DRT?
- Comprei provisório... - disse timidamente.
- Comprei provisório... - disse timidamente.
- O palco é seu... - disse friamente.
O menino olhou para os lados e as lágrimas desciam suavemente uma atrás da outra. Então ele olhou a penumbra e respirou fundo fechando os olhos. - Eu sei o que sou...
Virou - se em silencio e sumiu.
- Cada um que me aparece... - disse o diretor limpando o suor da testa, mas ficou um tempo em silencio repensando o que vira. Havia algo naquele menino que não fazia sentido á ele.
- Arnaldo... você tá estressado... é isso. - disse se levantando riscando o ultimo nome da lista.
- Até amanhã Beto. - disse Arnaldo se despedindo do servente do teatro. Vestindo seu casaco naquela noite sem lua de São Paulo mais fria de todos os tempos, Arnaldo andava lentamente olhando cada traço da cidade. Onde guardava lembranças em cada pedra do asfalto, em cada edifício velho que enfeitava aquela cidade moderna. Há distancia de sua casa era consideravelmente longa, mas Arnaldo nunca economizou passos, andar lhe dava inspiração... inspiração... uma palavra que o atormentava em cada passo. Os testes começaram, mas Arnaldo não tinha a minima noção do que iria escrever e quais personagens queria. Há tempos não sabia o que era escrever durante horas, tocar as pontas dos dedos levemente na sua Underwood como se fosse um piano. Suas ideias tinham um começo, mas não tinham continuidade e muito menos sentimentos... Arnaldo tentara de tudo. Chegar até a embriaguez e escrever qualquer coisa que vier em sua insanidade, amar novamente para que pelo menos escrevesse uma história de amor, ficar de cabeça pra baixo durante horas, mas todas estas tentativas o levava a meditar em frente sua máquina sem tocar uma letra.
Chegando em seu apartamento no primeiro andar Arnaldo sentou -se na unica poltrona de sua sala e olhou a pilhas de livros no chão. Pratos, panelas e talheres sujos na pia durante uns dias. Poeira por todo o canto do pequeno apartamento. Levantando desanimado fora direto para seu quarto onde a cama estava desarrumada, lençóis que não trocara desde que dispensou a faxineira há dois meses atrás. Tudo estava em desarmonia... menos sua varanda. Ali estava sua Underwood brilhando na noite, sua escrivaninha e cadeira refletia em suas pupilas. Arnaldo abriu um sorriso de lado e sentou - se diante seu "santuário".
- Conta - se a história de um homem... Não... uma mulher! Não... um homem que não tinha coração! Não... um...escritor idiota que não sabe escrever mais. - dizia sentindo as ultimas palavras revirarem seu estomago.

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